Anastásia Romanov: A grã-duquesa russa que inspirou o sucesso da FOX

No ano de 1997 era lançado um dos maiores e mais amados clássicos da Fox Animation: Anastásia. O longa, que contava a história da grã-duquesa russa que havia se perdido após seu palácio ser atacado, arrecadou milhares de fãs por todo o mundo. Uma princesa que ia além do universo mágico da Disney, uma princesa que realmente existiu.

Depois do golpe que levou a vida de seus pais, e irmãos, Anastásia perdeu sua memória, se tornando, então, Annia, uma jovem órfã que vive em um humilde abrigo em meio as montanhas geladas da Rússia. Ao ser enviada embora, para buscar emprego, a jovem acaba se encontrando com Dimitri, um ambicioso rapaz que procura a candidata perfeita para se passar pela grã-duquesa desaparecida. Inocente, Annia acaba se deixando levar pelas tentadoras palavras do pequeno vigarista, acreditando se tratar, realmente, da duquesa. Ou, ao menos, achando que essa seria uma possibilidade.

A verdade é que, cá entre nós, Dimitri se aproveitou bastante do fato da moça querer descobrir sobre seu passado esquecido. E essa história se baseia na velha lenda urbana, Anastásia Romanov está viva? Se você não sabe sobre o que estou falando, fique calmo, tudo vai se encaixar. A primeira coisa que temos que ter em mente é que a família Romanov realmente existiu e governou a Rússia por longos anos, sendo assassinada brutalmente pelos soldados bolcheviques, nada de magos que fizeram pacto com o coisa ruim, a história real é bem mais intensa e não te um desfecho tão feliz quanto o que nos foi apresentado em 97.

O czar Nicolau II e sua esposa, Alexandra Feodorovna, foram os últimos governantes aristocráticos na Rússia imperial. Eles tiveram quatro filhas, Olga, Tatiana, Maria e Anastásia, além de um filho chamado Alexei. Olga, a mais velha, viveu até os 22 anos, dedicando sua vida a família, seus deveres nobres e ajudando pessoas que precisavam. Inclusive, ela chegou a cuidar de soldados feridos no hospital militar da Primeira Guerra Mundial, só parando quando a pressão lhe foi tanta que ela decidiu ficar somente com a parte administrativa.

A segunda filha foi Tatiana, que nasceu pouco mais de um ano depois de Olga. Ela foi a mais conhecida dentre suas irmãs enquanto estava viva, sendo uma líder nata. Chefiou comités da Cuz Vermelha durante a Primeira Guerra e, assim como sua irmã mais velha, cuidou de soldados feridos no hospital militar por cerca de 3 anos, até sua família ser presa pouco antes da Revolução Russa. Quando Tatiana nasceu, Nicolau II escreveu em seu diário: “O segundo mais claro e alegre dia da nossa família: às 10:40 pela manhã o Senhor abençoou-nos com uma filha – Tatiana. A pobre Alix sofreu toda noite sem fechar os olhos por um momento, e às 8:00h foi para o quarto da Amama (“Avó” em dinamarquês). Obrigado Deus por este momento, tudo aconteceu rápido e com segurança, e eu não me sinto nervosamente exausto. Perto das 1:00h a pequena foi banhada e Yanyshev leu algumas orações. Amama chegou com Xenia e almoçamos juntos. Às 4:00h aconteceu a Te Deum. Tatiana pesa 83/4 e tem 54 centímetros. A nossa filha mais velha está muito feliz com ela. Li e escrevi telegramas.”

Maria foi a terceira filha da família Romanov. Diferente do que acontecia com suas irmãs mais velhas, Maria não podia se tornar enfermeira da Cruz Vermelha, por ser muito nova. A saída que a jovem encontrou foi abrir um hospital com sua irmã mais nova, Anastásia, e as duas tinham o costume de ir visitar os soldados feridos da Guerra, para lhe dar forças. Maria tinha o sonho de se casar com um soldado, o que a fez se apaixonar várias vezes por diferentes pacientes, mas a jovem não pode concluir seu sonho de se casar e ter uma família, uma vez que faleceu aos 19 anos. Dessa vez, no diário de Nicolau podíamos ler: “Um dia feliz: o Senhor enviou-nos uma terceira filha – Maria, que nasceu em segurança às 12:10! A Alix mal dormiu durante a noite, e de manhã as dores aumentaram. Graças a Deus que tudo acabou depressa! A minha querida sentiu-se bem durante todo o dia e alimentou ela própria a bebé… a tarde foi maravilhosa”.

E então veio a vez de Anastásia, a quarta filha do casal e a que se tornou mais conhecida após seu falecimento, aos 17 anos. O seu nascimento não foi tão celebrado quanto o de suas irmãs mais velhas, já que o czar estava desapontado por não ter um herdeiro homem, mas, logo após se recompor, ele nomeou o bebê. Anastásia significa “aquela que se liberta das correntes” ou “ressurreição”. O seu nome veio repleto de significados, entre eles, o fato de que seu pai libertou estudantes que haviam sido presos no inverno anterior para comemorar o nascimento da pequena. A quarta grã-duquesa não era uma criança muito comportada, um de seus apelidos era “Shvibzik”, que significaria algo como “diabinha”. Isso, de forma alguma, fazia as pessoas não gostarem da menina, ao contrário, Anastásia encantava a todos com sua personalidade animada e energética. Ironicamente, isso vai contra o que Nicolau II escreveu em seu diário após o nascimento da filha, dizendo que ela veio ao mundo com um “sentimento de calma e solidão”, uma vez que sua esposa não sofreu nada e a bebê nasceu enquanto todos dormiam. (Inclusive, a característica mais marcante da grã-duquesa Anastásia eram seus olhos azuis, o que fica bem evidente na animação.)

Alexei foi o último filho, finalmente Nicolau II havia conseguido um herdeiro menino. Ele seria o sucessor ao trono russo, se não tivesse morrido aos 13 anos. O menino sofria de hemofilia, o que fez com que Alexandra dependesse e confiasse bastante num monge siberiano que alegava conseguir “curar” as crises do menino. O pequeno herdeiro era bastante diferente de suas irmãs, que costumavam ser mais independentes e esforçadas. Ele era inteligente, mas extremamente mimado, se tornando, muitas vezes, irritante e mal-criado, chegando, até mesmo, a envergonhar os pais em ocasiões importantes. Boa parte desse comportamento pode ser explicado pelo fato da criança ter crescido sobre vigília, já que sua doença o limitava muito. Alexei não podia andar de bicicleta ou brincar com sua irmã, Anastásia, já que qualquer pequeno machucado podia causar uma hemorragia.

Um fato interessante, é que as irmãs de Anastásia podem ser vistos no longa animado produzido pela Fox. Elas aparecem pouco antes da roupa da jovem mudar durante a música “Once Upon a December” e são as moças que interagem com a protagonista. Alexei também pode ser visto, descendo as escadas com seus pais.

A vida da família chegou ao fim em julho de 1918, ou seja, a (quase) exatos 100 anos atrás. A Revolução Russa veio para tirar a família Romanov do poder, aprisionando-os e assassinando-os. Lenin teve, naquela época, total apoio da população, que estava farta do governo absolutista da época e queria algo mais democrático. No entanto, o que aconteceu exatamente com a família do czar ficou na penumbra por bastante tempo. Algum tempo após o desaparecimento de todos, e sem a real confirmação do que havia acontecido com os membros reais, muitas pessoas começaram a aparecer alegando serem os descendentes de Alexandra e Nicolau II.

Sim, isso mesmo, não foi apenas Anastásia que estava na lenda de possível sobrevivente, todos os outros filhos de Nicolau II foram atingidos por mentiras. Muitas pessoas alegavam ser Olga, Tatiana, Maria ou Anastásia, algumas se tornaram mais famosas que outras. Felizmente, boa parte das farsas foram desmascaradas no ano de 1991, quando, em uma cova simples, foram encontrados os esqueletos de Nicolau II, Alexandra, Olga, Tatiana e uma terceira menina que não sabiam alegar, com exatidão, se se tratava de Maria ou Anastásia.

Foi então que a lenda de Anastásia está viva se consolidou. Era difícil acreditar que Alexei tivesse sobrevivido, devido a sua condição de saúde, mas ainda havia esperança para Anastásia. É ao redor dessa lenda que o enredo do filme produzido pela Fox Animation Studios se baseia. Anastásia Romanov está viva? Mas, infelizmente, a resposta é não. Anastásia morreu no mesmo período que seus pais e irmãs e isso só foi comprovado em 2007, quase 90 anos após seu desaparecimento, quando restos mortais de uma moça e um rapaz foram encontrados, na mesma região que seus pais haviam sido enterrados. Em 2008 veio a confirmação, por testes de DNA, se tratavam dos filhos mais jovens da família.

Infelizmente, para muitos que amavam a história da Anastásia contada pela FOX, a descoberta dos corpos das crianças foi um verdadeiro balde de água fria. A lenda da Anastásia viva se tornou um verdadeiro símbolo mundial, que, agora, não passa de falsas esperanças. Os seis membros da família foram canonizados pela Igreja Ortodoxa Russa, como Portadores da Paixão. Atualmente, os corpos estão enterrados na Catedral de São Pedro e Paulo, em São Petersburgo.

Uma curiosidade extra: A farsante que mais ficou conhecida por tentar se passar por Anastásia se chamava Anna Anderson, uma inspiração para o nome que a protagonista adota no filme, Annia.

E então? Gostou de saber um pouco mais sobre a origem de Anastásia Romanov? Deixe seu comentário logo abaixo!

Júlia Campos

Oficialmente, estudante de design e técnica de informática. Nas horas vagas, ilustradora, modelo e escritora. Sou apaixonada por jogos, gamedesign e cultura oriental no geral, as vezes até pareço ser uma Geek assumida. Fã da autora Maggie Stiefvater e amante de séries de suspense, mistério e terror (as vezes arriscando um romancezinho).